Agostinho sobre Cair da Graça

O quinto ponto do calvinismo é a perseverança dos santos. A Confissão de Westminster define Perseverança dos santos como:

Eles, a quem Deus aceitou em seu amado, efeticazmente chamados e santificados pelo seu Espírito, não podem nem se afastar total ou finalmente do estado de graça, mas certamente perseverarão até o fim e serão eternamente salvos. (link)

O objetivo deste trabalho é mostrar que Agostinho não manteve esta doutrina. Claramente, a verdade ou falsidade desta doutrina, deve ser estabelecido a partir das escrituras, não Agostinho. Agostinho também não fala por toda a história pré-reformada da igreja. No entanto, a razão pela qual este tópico é de alguma importância é que os calvinistas buscam apoio histórico para a sua visão em Agostinho. Eles evitam a acusação de “inovação”, apelando para seus escritos. Alguns calvinistas extremos chegam a dizer que havia uma “igreja escondida” que detinha opiniões semelhantes à sua através da história. Esta igreja escondida manteve as opiniões de Agostinho, apesar do fato de que muitos ícones da igreja visível tinham opiniões contrárias.

Sobre a doutrina específica da Perseverança dos Santos, a importância é um pouco exagerada. Tanto quanto sei, nenhum pai da igreja, nem qualquer teólogo pré-reformador, ensinou claramente essa visão. Muitos ensinam claramente a opinião oposta, que o homem pode cair da graça. O primeiro teólogo que ensinou claramente a Perseverança dos Santos foi João Calvino. Como a igreja, por 1500 anos, não percebeu uma doutrina de tal importância? Alguns dizem que houve essa percepção e olham para Agostinho como um exemplo de um Pai da Igreja que defendeu essa opinião. Por exemplo, Francis Turretin, um teólogo com sua origem no meio reformado, cita agostinho em apoio a esta opinião em seu tratado sobre discípulos temporários.

A citação de Agostinho a qual parece favorecer a Perseverança dos Santos

Agostinho defendeu a eleição incondicional. A eleição não se baseia na fé prevista ou na perseverança prevista. Ao invés disso Deus, das massas caídas, escolhe incondicionalmente quem Ele salvará.

Ele não diz: “Deus é capaz de prometer o que soube de antemão ou manifestar o que predisse ou saber previamente o que prometeu. Mas, Ele era capaz de cumprir o que prometeu. Portanto, leva a perseverar no bem os que justifica”. – Capítulo 36. [1]

Aqueles a quem Deus escolhe salvar, Ele dá o dom da perseverança.

 

Será que alguém se atreverá a dizer que essa perseverança não é o dom de Deus, e que este tão grande dom é nosso e tão nosso que se alguém o receber, não lhe possa dizer o Apostolo: que é que possui que não tenha recebido? 1 Coríntios 4: 7 Nós também não negamos que a perseverança final no bem seja um excelente dom de Deus e que sua procedência seja aquele do qual está escrito: Todo dom precioso e toda dadiva perfeita vem do alto, descendo do Pai das luzes.” James 1: 17 – Capítulo 10

E aqueles que receberam o dom certamente perseverarão e terão a vida eterna.

Portanto, aqueles eleitos, como muitas vezes dissemos, que foram chamados segundo seu desígnio, foram também predestinados e conhecidos de antemão. Se algum deles se perde, é sinal de que Deus se engana; mas nenhum se perde, porque Deus não se engana. Se alguns deles perece, Deus é vencido pelo pecado do homem; mas nenhum deles perece, porque Deus por nada pode ser vencido. – Capítulo 14

Isso está começando a parecer muito com a visão calvinista. Mas se a evidência em favor de Agostinho que mantém a Perseverança dos Santos não é firme o suficiente, ele continua dizendo que aqueles que se parecem discípulos não são realmente discípulos, nem filhos de Deus. Ao explicar as passagens que parecem sugerir que alguns estão caindo da graça, Agostinho parece estar dizendo que nunca tiveram graça para começar.

No dizer do Evangelho, não eram chamados discípulos? Mas não eram, em verdade, discípulos, porque não permaneceram na palavra, conforme diz a sentença: Se permanecer na minha palavra, sereis, em verdade, meus discípulos. Faltando-lhes a perseverança, não eram verdadeiros discípulos de Cristo nem foram de fato filhos de Deus, embora parecessem e assim tivessem sido chamados. Nós denominamos eleitos, discípulos de Cristo e filhos de Deus os que assim devem ser denominados, já que, uma vez regenerados, nós os vemos viver piedosamente. Mas serão de fato o que o nome indica, se permanecerem na forma de vida que o nome exige. Porém, se não permanecerem no caminho no qual começaram, não merecem este nome com que são denominados e não são o que o nome revela. Não são perante aquele que sabe o que haverão de ser, ou seja, bons que vão se tornar maus. – Capítulo 22

Após a investigação inicial, parece que Agostinho ensinou Perseverança dos santos. Neste ponto, só destacarei que é possível que Agostinho tenha ensinado que alguns não podem perseverar. Os comentários acima sobre os eleitos e o dom da perseverança podem ser explicados em uma ampla consistente com a visão de que as pessoas não eleitas podem receber o dom da conversão, mas não o dom da perseverança. Além disso, a citação acima poderia ser explicada como falando sobre a visão de Deus de seu status futuro e não atual, que a frase final parece manter.

Agostinho ensina que os cristãos podem apostatar?

Há vários lugares onde Agostinho parece sugerir que talvez nossa primeira leitura estivesse incorreta e que, pelo menos, devêssemos ponderar o assunto um pouco mais. Considerar:

Mas, em se tratando de alguém já regenerado e justificado e que recai na infidelidade voluntariamente, não poderá dizer: “Não recebi”, visto que pela sua livre vontade preferiu o mal à graça de Deus recebida. – Capítulo 9

Agora, essa pessoa é regenerada e justificada e ainda perde a graça. Mas talvez por perda de graça, Agostinho só queira dizer comunhão. Mas Agostinho continua dizendo da mesma pessoa que o que lhe falta é o dom da perseverança, o qual presumisse quem nem todos os cristãos possuem?

Acaso o resistente à correção pode dizer: “O que fiz eu que não recebi?”, se conta que recebeu, mas por sua culpa perdeu o que recebeu? Ele replica: “Posso dizer ainda: ‘Que fiz que não recebi?’, quando me repreende pelo fato de ter recaído da boa para a má vida por minha vontade. Recebi, sim, a fé que age pela caridade, mas não recebi a graça da perseverança na fé até o fim. – Capítulo 10

Isso parece indicar que talvez Agostinho tenha ensinado que os crentes podem cair da graça. Mas até onde a eleição de Deus garante a perseverança? Como então esses, os eleitos, não têm o dom da perseverança. Agostinho tem uma pronta resposta. Eles não são eleitos.

Aquele, porém, que não hão de perseverar e, assim, se afastarão da fé e da conduta cristãs, surpreendidos pelo término desta vida, não serão incluídos no número dos eleitos, não se considerando sequer o tempo em que viveram uma vida santa e piedosa. Pois não foram segregados da massa de perdição pela presciência e predestinação de Deus e, portanto, não foram chamados segundo seu desígnio nem eleitos. Serão incluídos entre os muitos chamados, e não entre os poucos escolhidos. Não se pode negar que são considerados eleitos pelo fato de terem fé, serem batizados e viverem conforme a vontade de Deus. Mas são tidos como eleitos pelos que desconhecem seu futuro, mas não por aquele que sabe que não terão perseverança, a qual conduz os eleitos à vida bem-aventurada. E sabe que agora estão de pé, assim como tem a presciência de que hão de cair. – Capítulo 16

Por que Deus não lhes dá perseverança? A resposta é a mesma razão pela qual Deus, incondicionalmente, elege alguns e não outros. Ninguém sabe, Deus mantém isso em segredo e não devemos questionar.

Se me perguntarem a razão pela qual Deus negou a perseverança aos que outorgou a caridade para viver cristãmente, repondo que ignoro. Pois, reconhecendo o que sou e sem arrogância, apoio-me nas palavras do apostolo: Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus? (Rom. 9:20). E também: Ó abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são insondáveis seus juízos e impenetráveis seus caminhos! (Rom 11:33). Portanto, quando ele se digna dar-nos a conhecer seus desígnios, demos-lhe graças; quando, porém, no-los ocultar, não murmuremos contra seus planos, mas creiamos que mesmo neste caso eles são salutares. – Capítulo 17

Talvez eles não fossem verdadeiramente cristãos? Agostinho diz muito claramente que foram regenerados, justificados e adotados.

Com efeito, é de admirar e muito que Deus tenha outorgado a alguns de seus filhos regenerados em Cristo a fé, a esperança e a caridade, mas não lhes concede a perseverança, ao passo que aos filhos dos infiéis perdoe tantos pecados e, dando-lhes a graça, adote-os como filhos. – Capítulo 18

Esses dons são, possivelmente, atribuídos por engano a essas pessoas por nós, mas não de fato por Deus? Não. Agostinho chega a dizer que Deus poderia salvá-los tirando a vida antes de cair. Apenas um relacionamento com Deus, não uma condição má compreendida pelo homem, concede a vida eterna.

Respondam nossos adversários, se são capazes, por que Deus, quando esses homens levavam uma vida fiel e piedosa, não os arrebatou dos perigos desta vida, evitando que a malicia lhes mudasse o modo de pensar e as aparências enganadoras seduzissem a sua alma (Sabedoria 4:11). Acaso não tinha este poder ou desconhecia seus futuros? – Capítulo 19

O momento de sua morte não importaria se sua vida nunca estivesse em estado de salvação. Mas por que Deus não os retira deste mundo enquanto eles estão na fé e no estado de graça? Assim ninguém saberia se eles estavam no número predestinado.

Se mesmo com relação aos eleitos, as afirmações da Escritura deixam a incerteza do seu número, devem acolhê-las no seu sentido, já que não convém que se ensoberbeçam, mas se encham de temor. Entre os numerosos fieis durante esta vida mortal, quem tem a presunção de se considerar entre os predestinados? – Capítulo 40

E para que ninguém presuma que tenha segurança

Pela utilidade deste segredo, destinado a evitar que alguém se ensoberbeça e a fazer com que se encham de temor aqueles que correm no caminho certo por desconhecer os que alcançarão a meta, pela vantagem deste segredo, repito, há motivo para crer que alguns, dentre os filhos da perdição, não tendo recebido o dom da perseverança final, comecem a viver na fé, que age pela caridade, e temporariamente pratiquem a justiça e a piedade e depois desistam antes de ser arrebatados desta vida. – Capítulo 40

Assim, finalmente, é o propósito oculto de Deus.

Ou recebem a graça de Deus, mas estão apegados ao mundo e não perseveram, abandonam o caminho reto e por isso são abandonados. São, pois entregues ao livre-arbítrio por um juízo oculto e justo de Deus, uma vez que não aceitaram o dom da perseverança. – Capítulo 42

Em resumo, a visão de Agostinho era que aqueles que têm fé com as obras pelo amor, aqueles que são fiéis e justos, que são justificados, que são regenerados em Cristo, aqueles na graça de Deus, aqueles que, se morressem, teriam a vida eterna, aqueles que recebem fé, esperança e amor e são filhos de Deus, podem não estar entre os eleitos, e não terem recebido o dom de perseverança, e podem cair e se perderem. Portanto, ninguém pode ser presunçoso e ninguém sabe com certeza se eles receberam o dom da perseverança. Quão diferente da visão calvinista.

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1 Todas as citações tiradas de A correção e a Graça, Agostinho de Hipona em 426 ou 427 D.C.(link)

http://evangelicalarminians.org/augustine-on-falling-from-grace/

 

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