OS ARMINIANOS ODEIAM A SOBERANIA DE DEUS?

 

Por William Birch

A pergunta “Por que os arminianos odeiam a soberania de Deus?” foi feita recentemente por um calvinista chamado Avery que faz muitas suposições sobre os arminianos. Mas nós poderíamos, em contrapartida, perguntar: “Por que os calvinistas presumem que os arminianos odeiam a soberania de Deus?” A pergunta pressupõe que os arminianos sabem absolutamente que a crença calvinista em relação à soberania de Deus, que é contextualizada nos moldes do determinismo exaustivo e meticuloso, é o ensino correto e bíblico, e que nós conscientemente rejeitamos e odiamos esta posição

Pelo contrário, os arminianos se regozijam na soberania de Deus, e estão completamente satisfeitos em deixar Deus ser Deus. Além disso, achamos que nós definimos corretamente a soberania de Deus, representando assim propriamente o caráter e a natureza de Deus. Ademais, acreditamos que a noção calvinista da soberania de Deus difama o caráter e a natureza de Deus, mancha Sua integridade, questiona Sua justiça e Seus propósitos e, consequentemente, insulta o amor de Deus.

Adicionalmente, uma breve réplica dada por John Moore, é apresentada no site teísta aberto God is Open: “Por que os calvinistas definem ‘soberania’ erroneamente e então fazem disso um ídolo e não pensam duas vezes se eles acusam e difamam o caráter de Deus ao passo em que mantêm seu ídolo intacto?” (http://godisopen.com/2014/11/28/answers-questions-why-do-arminians-hate-the-sovereignty-of-god/) Realmente, a crítica de Moore é convincente, como muitos de nós percebemos a idolatria à soberania de Deus da parte de alguns dos Jovens, Incansáveis e “Reformados” – soberania que aparece adorada em detrimento do próprio Deus como Ser divino.

Infelizmente, Avery não é o único calvinista que pensa que os arminianos desdenham da soberania de Deus, ainda que, reconhecidamente, calvinistas convenientemente dão a si mesmos o privilégio de definir a “soberania” de Deus. Dr. Roger Olson escreve: “Claro, quando calvinistas dizem que os arminianos não acreditam na soberania de Deus, eles indubitavelmente estão trabalhando com uma noção preconcebida de soberania tal que nenhum conceito, além do deles, pode possivelmente alcançar os padrões exigidos.” [1] Ele está, claramente, correto.

Alguns calvinistas, como o Dr. Edwin Palmer, insistem que os arminianos negam abertamente a soberania de Deus. [2] Os calvinistas David Steele, Curtis Thomas e S. Lance Quinn citam J. I. Packer como um resumo da discordância de Armínio e dos Remonstrantes com os seus colegas calvinistas deste mesmo modo. Preste muita atenção À sua primeira alegação:

“A teologia que [a Remonstrance de 1610] continha (conhecida historicamente como Arminianismo) partia de dois princípios filosóficos: primeiro, que a soberania divina não é compatível com a liberdade humana, e nem, portanto, com a responsabilidade humana; segundo, que capacidade regula a obrigação.”[3]

Afirmando a soberania de Deus de um modo determinista, os calvinistas se fecham em sua própria zona de conforto, declarando todos os outros crentes como não-ortodoxos ou heterodoxos – ou, como J. I. Packer, O. R. Johnston e R. C. Sproul afirmam em suas opiniões, nós somos “não-cristãos”, ou “anti-cristãos”, ou, na melhor das hipóteses, “quase salvos”. [4] Quando eruditos calvinistas fazem comentários bizarros como estes sobre seus oponentes teológicos, de que outra forma os estudantes da Bíblia mais jovens e influenciáveis irão ver a teologia arminiana, ou, neste caso, qualquer outra visão teológica que se oponha ao Calvinismo, a não ser então adotar o Calvinismo, a despeito de sua estranheza inicial em relação a algumas de suas alegações e, especialmente no que diz respeito à soberania de Deus?

Os arminianos têm uma visão elevada da soberania de Deus, ao contrário das caricaturas difundidas a nosso respeito em contrário. Na verdade, nós achamos que os arminianos sustentam uma visão da soberania de Deus superior à dos calvinistas, como fui lembrado por meu irmão arminiano Johnathan Pritchett. A razão pela qual a visão arminiana da soberania de Deus é considerada superior à calvinista deve-se ao seguinte: Para um Deus onipotente, controlar rigidamente todas as pessoas é fácil e não requer esforço. Como o movimento de peças de xadrez em um tabuleiro, os movimentos são rápidos e suaves. As peças se movem para onde quer que o jogador as coloque sem a menor resistência que seja.

Mas quando se considera a individualidade de cada criatura, combinada com suas complexidades e, às vezes, irracionalidade, sem falar de suas vontades, Deus ainda é capaz de fazer “todas as coisas segundo o conselho da sua vontade” (Ef 1.11), e fazer isto sem manipular Suas criaturas (porque seres humanos não são peças de xadrez ou objetos). Você pode fazer um objeto lhe obedecer controlando-o. Mas persuadir um ser humano a amá-lo e fazê-lo obedecer é totalmente diferente – é algo que requer sinceridade, mansidão, e relacionamento.

Armínio acredita que Deus governa todas as coisas que possam ser governadas em Seu universo, o que quer dizer que nada é deixado de fora. Admitir que Deus é soberano é confessar que Ele é o Governador do universo: Ele que é o “bendito e único Soberano [dynastēs], o Rei dos reis e Senhor dos senhores” (1 Tm 6.15). Dynastēs refere-se a um governador ou oficial de grande autoridade, poderoso (cf. Lucas 1.49); [5] um potentado. A palavra é derivada do substantivo dunamai, referente à habilidade, capacidade e poder. O fato de Deus ser capaz de controlar e manipular todas as coisas imagináveis não significa que Ele realmente controle e manipule todas as coisas imagináveis. Portanto a ideia de soberania não é sinônima de determinismo.

Tome, todavia, as conotações sem ligação com a palavra “soberano”: controlador de todos os detalhes da existência de alguém; determinador de (e aquele que decretou estritamente) todas as coisas, incluído o pecado e o mal; aquele que decreta e deseja todas as coisas que devem acontecer necessariamente. Em outras palavras, a palavra “soberano” não dá margem à ideia de que Deus (ou qualquer outro governador nesse caso), por necessidade, determine exaustivamente ou meticulosamente cada detalhe da vida de alguém, incluindo quais escolhas o indivíduo fará e quando elas devem ser feitas. Nem tampouco a palavra “soberano” dá margem à teoria de que o pecado e o mal são necessários. Portanto, a visão calvinista da soberania determinista de Deus é um erro sério.

Estas são as ideias que o Calvinismo tem difundido sobre a natureza de Deus, e elas afetam a forma como nós compreendemos Seu caráter. Este é um dos muitos motivos pelos quais o Calvinismo deve ser rejeitado pelos cristãos ortodoxos. Estas ideias deterministas nunca foram parte do Cristianismo ortodoxo nos primeiros quatro séculos da história da Igreja, e não há lugar para elas na teologia hoje em dia. Mesmo Agostinho – o fundador anacrônico daquilo que vira a ser chamado Calvinismo – em sua juventude se opôs ao determinismo rígido. Nós não encontramos o determinismo introduzido na Igreja até a reação exagerada de Agostinho contra Pelágio no começo do quinto século.

Armínio acredita que Deus é soberano sobre todas as coisas, incluindo o pecado e o mal. Roger Olson comenta:

“Armínio ficou pasmo com a acusação de que ele tinha uma opinião inferior em relação à providência de Deus, pois ele não mediu esforços para afirmá-la. Ele até mesmo chegou a dizer que todo ato humano, incluindo o pecado, é impossível sem a cooperação de Deus! Isto faz simplesmente parte da cooperação divina, e Armínio não estava disposto a considerar Deus um espectador.” [6]

Concernente à doutrina da eleição, Armínio afirma que Deus “não faz nada no tempo que Ele não tenha decretado desde toda a eternidade fazer” [7], novamente, afirmando que nenhum ato, nem mesmo a salvação, é deixado ao acaso, mas que todas as coisas, sem exceção, são governadas pela soberania de Deus. Mas o que ele e todos os cristãos ortodoxos devem negar, isto é, se eles querem manter uma visão elevada tanto das Escrituras quanto da soberania de Deus, é que Deus decretou o pecado e o mal, como se precisasse deles, a fim de cumprir Seu plano para a história. Se o pecado e o mal são necessários (e, desse modo, o pecado e o mal são da vontade de Deus), e eles existem para a glória de Deus, então eu falho em ver como o pecado e o mal serão desnecessários no fim dos tempos (no reino futuro de Deus).

Na verdade, se o pecado e o mal são necessários, e eles são absolutamente necessários para a glória de Deus, para que “a glória de Cristo brilhe mais intensamente”, como John Piper é infame por ensinar, [8] então nós não deveríamos orar por mais pecado e mal? Nós queremos que Cristo Jesus brilhe o máximo possível! Nós não deveríamos, então, de acordo com esta lógica, nunca orar contra a injustiça e o mal, e sim dar lugar à sua presença de modo que a glória de Deus possa ser mostrada ao máximo! Tal teologia é indigna do Deus da Bíblia, que detesta o pecado e o mal (Sl 26.5; cf. Sl 97.10; 119.104, 128), e que enviou Seu Filho ao mundo para libertar os homens do Inimigo e destruir as suas obras (1 João 3.8), não para fazer a Sua glória brilhar mais intensamente através do mal.

O próprio Deus admite que Ele absolutamente odeia “olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, o coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal, a testemunha que profere mentiras, e o que semeia contenda entre irmãos” (Pv 6.16-19). Iremos imaginar, então, que Deus preordenou, ou decretou necessariamente, ou faz acontecer estas coisas que Ele odeia e considera abominável? Segundo Calvino e o Calvinismo clássico a resposta é sim. Segundo as Escrituras e, dessa maneira, segundo o Arminianismo Clássico a resposta deve ser não. Nem as Escrituras nem a teologia arminiana estão dispostas a retratar Deus como Aquele que decreta por necessidade o pecado e o mal. Esta verdade, contudo, não nega a soberania de Deus, mas sim a enquadra em seu contexto bíblico.

Em outras palavras, a soberania de Deus, quando biblicamente e corretamente definida e compreendida, nega a teoria do determinismo ao mesmo tempo em que apoia a verdade de Seu governo, supremacia e autoridade. Nós devemos permanecer no temor de Deus, que é capaz de fazer todas as coisas segundo o conselho de Sua vontade, ao mesmo tempo em que respeita e permite a liberdade humana, limitada e governada do modo que a liberdade deve ser. Os arminianos, entretanto, amam a Deus por completo e não apenas à Sua soberania.

A concepção de que Deus meticulosamente controle todas as coisas que as pessoas escolham, digam e façam é uma visão muito baixa e vergonhosa do Seu caráter justo e santo. O Arminianismo apresenta o que acreditamos ser a visão bíblica da soberania de Deus, na qual é ausente qualquer ideia de determinismo rígido. Isto é devido, simplesmente, ao fato de que a palavra “soberano”não traz em si mesma nenhuma concepção de determinismo. Nós não odiamos a soberania de Deus: nós odiamos a forma que a visão calvinista distorcida da soberania avilta a integridade, a justiça, o amor e a santidade de Deus.

_______________________

[1] Roger E. Olson. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades (Editora Reflexão, 2013), pág. 150.
[2] Edwin. H. Palmer. The Five Points of Calvinism: A Study Guide (Grand Rapids: Baker, 1972), pág. 85.
[3] David N. Steele, Curtis C. Thomas, S. Lance Quinn. The Five Points of Calvinism: Defined, Defended an Documented (Phillipsburg: P&R Publishing Company, 2004), pág. 14.
[4] R. C. Sproul. Willing to Believe: The Controversy over Free Will (Grand Rapids: Baker Books, 1997), pág. 24.
[5] New International Dictionary of New Testament Theology: Abridged Edition, Ed. Verlyn D. Verbrugge (Grand Rapids: Zondervan, 2000), pág. 154.
[6] Roger E. Olson. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades (Editora Reflexão, 2013), pág. 157.
[7] James Arminius. “Disputation XVI. On the Vocation of Men to Salvation, de The Works of Arminius, the London edition, três volumes, traduzido por James e William Nichols (grand Rapids: Baker Book House, 1996), 2: 235.
[8]Retirado do artigo de Bruce A. Little, “Evil and God’s Sovereignty”, em Whosoever Will: A Biblical-Theological Critique of Five-Point Calvinism, eds. David L. Allen e Steve W Lemke (Nashville: B&H Academic, 2010), pág. 291.

Traduzido por Thiago Silva dos Santos.
Revisado por Luis Henrique Silva.

Todas as Referências Bíblicas são da Versão Almeida Corrigida e Revisada Fiel ao Texto Original (ACF), com exceção do texto de 1 Timóteo 6.15, que é da Versão Almeida Revista e Atualizada (ARA).

Post original disponível em:http://evangelicalarminians.org/do-arminians-hate-the-sovereignty-of-god

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