Será que Tudo É “a Vontade de Deus”?

Jack Cottrell

PERGUNTA: Nosso pastor diz que tudo é a vontade de Deus. Será que isso é verdadeiro? Como nós podemos entender “a vontade de Deus”?

RESPOSTA: Para saber o que o seu “pastor” quer dizer quando ele diz que “tudo é a vontade de Deus”, eu teria que saber se ele é ou não calvinista. Deixe-me explicar.

As palavras do Novo Testamento para “vontade”, conforme usadas no contexto da “vontade de Deus”, podem significar uma de três coisas: desejo, propósito ou permissão. Tendo em vista esta variedade de conotações, é certamente correto dizer: TUDO QUE ACONTECE É A VONTADE DE DEUS. Porém, duas pessoas diferentes podem fazer esta mesma afirmação e querer dizer por ela duas coisas completamente diferentes.

Em primeiro lugar, quando um calvinista faz esta afirmação, ele quer dizer que tudo o que acontece é a vontade de Deus nos dois primeiros sentidos da palavra “vontade”, a saber, “desejo” e “propósito”. Os calvinistas começam com o conceito de um “decreto eterno”. Ou seja, antes que qualquer coisa aconteça, Deus esboça em sua mente um projeto detalhado e meticuloso que inclui tudo o que vai acontecer dentro da criação que Ele está prestes a trazer à existência. Neste sentido, o projeto é abrangente. Além disso, tudo no projeto (decreto), seja na esfera da natureza ou na esfera das ações humanas, é resultado da exclusiva opção de Deus. Ele é o único que tem influência sobre o projeto, sobre qualquer coisa que seja inserida nele. Nós criaturas humanas não temos NADA a ver com o projeto; o decreto é totalmente incondicionado por qualquer coisa fora de Deus. O que quer que esteja no decreto, está lá porque Deus QUER que esteja lá e ponto final. Isso inclui todas as ações e decisões humanas aparentes. Assim, tudo o que acontece é a vontade de Deus no sentido que Ele assim o DESEJA.

Este decreto eterno também é descrito como eficaz ou causal. Isto é, o que quer que aconteça no nosso mundo, acontece porque estava no decreto e ponto final. Deus o colocou ali porque Ele quer que aconteça e porque é o seu propósito eterno FAZÊ-LO acontecer. Essa é a verdadeira história do mundo: Deus transformando Seu eterno decreto em realidade. Assim, tudo o que acontece é a vontade de Deus no sentido que faz parte do Seu PROPÓSITO. E se é o seu propósito, Ele vai se assegurar de que ele aconteça. O que quer que acontece é desejado por Deus, planejado por Deus e no final das contas causado por Deus. Como resultado deste sistema temos a crença comum de que “tudo acontece por uma razão” ou “há um propósito para tudo”.

Um calvinista diz que Deus tem um “plano predeterminado” para tudo. “Ele é o que VAI ACONTECER. É inevitável, incondicional, imutável, irresistível, abrangente e intencional… Ele inclui tudo – até mesmo o pecado e o sofrimento. Ele envolve tudo – até mesmo a responsabilidade e as decisões humanas.”[1] Outro diz que “a resposta definitiva à questão do por que uma coisa é e porque ela é assim deve sempre permanecer: ‘Deus a quis’, de acordo com a sua absoluta soberania.”[2]

Em meu julgamento, a referida abordagem à “vontade de Deus” é inteiramente falsa. ALGUMAS coisas acontecem porque Deus as intenciona e deseja, porém não tudo. É especialmente importante saber que a palavra “vontade” também pode significar “autorizar, permitir”. Quando compreendemos isso, podemos verdadeiramente dizer que TUDO O QUE ACONTECE É A VONTADE DE DEUS, mas não no mesmo sentido!

É claro que Deus decreta ou intenciona que algumas coisas aconteçam, principalmente coisas relacionadas à criação e à redenção. A cruz, por exemplo, foi pré-determinada (At 2.23). Porém, visto que Deus criou este mundo para ser habitado por criaturas com livre-arbítrio, a maioria das coisas que acontecem nele não são o propósito de Deus, mas sim PERMITIDAS por Ele. Deus deseja que nós, criaturas com livre-arbítrio, façamos muitas coisas que não fazemos (por exemplo, 2Pe 3.9) e Ele deseja que NÃO façamos muitas coisas que nós fazemos (especialmente cometer pecados). Assim, a Sua vontade, no sentido de “desejo”, nem sempre acontece. Porém, até mesmo nesses tipos de casos, o que quer que aconteça, acontece SOMENTE porque Deus PERMITE que aconteça.

Tg 4.13-15 identifica claramente esse aspecto da vontade divina: “Eia agora vós, que dizeis: Hoje ou amanhã iremos a tal cidade e lá passaremos um ano e contrataremos e lucraremos. ‘Portanto vocês não sabem como será a vossa vida amanhã. Vocês são apenas um vapor que aparece por um pouco e depois se desvanece’. Em vez disso, vocês deveriam dizer: ‘Se o Senhor quiser, viveremos e também faremos isto ou aquilo.’” Aqui, “se o Senhor quiser” significa “se o Senhor permitir” no mesmo sentido que At 18.21 e 1Co 4.19 (confira Rm 1.10; 15.32; 1Pe 4.19). O ponto é que Deus PODERIA EVITAR qualquer coisa que está prestes a acontecer se Ele optar por assim fazer e, às vezes, segundo a Sua vontade de propósito, ele faz justamente isso (Lc 12.20).

Porém, na maioria dos casos Ele deseja PERMITIR que isso aconteça de acordo com nossos próprios planos e escolhas, permitindo assim que as nossas escolhas livres determinem o nosso próprio destino. Ainda assim, mesmo quando Deus está PERMITINDO que tais coisas aconteçam como resultado de nossas próprias vontades, Ele está querendo que elas aconteçam no sentido que Ele está permitindo que elas aconteçam. Assim, até mesmo essas coisas são a vontade de Deus – porém NÃO no sentido que Ele está intencionando ou causando essas coisas. Elas são resultado da sua vontade permissiva apenas.

Assim – o que o seu pastor quer dizer quando afirma que “tudo é a vontade de Deus”? Se ele quer dizer que Deus decretou tudo e está causando tudo de acordo com seu próprio propósito eterno, isso não é bíblico. Mas se ele quer dizer que algumas coisas são a vontade de Deus no sentido que Ele as intenciona e causa, porém, outras coisas são a vontade de Deus apenas no sentido que Ele as permite, então ele está correto. A última é a visão bíblica.

[Alguns calvinistas dizem que algumas coisas (geralmente pecados) acontecem apenas por causa da vontade permissiva de Deus; porém, o conceito de verdadeira permissão é incompatível com o decreto eterno com o qual eles estão comprometidos. Portanto, os calvinistas sempre devem redefinir permissão, até que ela se torne sem sentido ou contraditória. Várias vezes eu tenho ouvido os calvinistas usarem a expressão “permissão eficaz” – o que é uma óbvia contradição de termos.][3]

Tradução: Cloves Rocha dos Santos
www.arminianismo.com

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