A História da Igreja e o Calvinismo – Parte 1

A História da Igreja e o Calvinismo – Parte 1

Dizer que algo parecido com um modelo calvinista de eleição esteja totalmente ausente dos ensinamentos dos primeiros pais da Igreja é, como ficará evidente em breve, um eufemismo. Ironicamente, porém, João Calvino não foi o criador de um sistema predestinista, estritamente falando. O fundador desta doutrina não foi outro senão Santo Agostinho (354-430 d. C.).

Segundo Vance, “A influência de Agostinho sobre a história de um modo geral e sobre o cristianismo em particular, é incalculável – mas não surpreendente – uma vez que, assim como Calvino, ele foi um escritor bastante prolífico… Quando um calvinista moderno se esforça para justificar o calvinismo por meio de um apelo aos homens, o primeiro nome mencionado é sempre o de Agostinho”.1

Antes de examinarmos as crenças pessoais que ele tinha, vamos ler primeiro quais eram os consensos de fé de alguns dos primeiros pais da igreja concernentes à eleição ou predestinação, e livre arbítrio. Todas as citações são da obra A Dictionary of Early Christian Beliefs, ed. David W. Bercot (Peabody: Hendrickson Publishers, Inc., 1998), 285-296:

Justino Mártir (160 d. C.) teria sido considerado um herege por alguns calvinistas por sua declaração, de que, “Uma vez que todos os acontecimentos são previstos antecipadamente, explicamos também essa questão, a fim evitar que alguns venham supor, a partir do que temos dito, que tudo que acontece é por uma fatal necessidade”

“Aprendemos com os profetas, e sustentamos que estejam certos, que punições, castigos e boas recompensas são proferidas de acordo com o merecimento das ações de cada um. Mas, se não é assim, e todas as coisas acontecem ao acaso, então, não há absolutamente nada dentro de nossa própria esfera de controle.

“Pois se está predeterminado que este homem será bom, e este outro homem será mau, logo nem o primeiro é por mérito e nem o último por culpa. E, novamente, a menos que a raça humana tenha o poder de evitar o mal e escolher o bem de forma livre, eles não são responsáveis por suas ações ” (p. 286).

Melito (170 d. C.), na mesma linha de raciocínio, escreveu: “Portanto, não há nada que te impeça de mudar a tua má maneira de viver, porque és um homem livre” (pg 286).

Da mesma maneira, Teófilo (180 d.C.) escreveu: “Se, por outro lado, ele se virasse para as coisas que levam à morte, desobedecendo a Deus, a causa da morte dele seria ele mesmo. Pois Deus fez o homem livre, e dotado da capacidade de fazer suas próprias escolhas” (pg 286).

Do modo semelhante, Tertuliano (210 d. C.) afirmou: “Quanto ao destino de cada um, é a liberdade da vontade do homem que define essa questão (p 288).

Você notou qualquer semelhança com o pensamento sistemático calvinista em alguma dessas declarações até agora? É seguro dizer que seria terrivelmente inconsistente para qualquer um desses homens reivindicarem o Calvinismo para a sua teologia e, ao mesmo tempo, fazer tais afirmações.

Defendendo a visão da presciência para a eleição ou predestinação, Irineu escreveu: “Deus conhece o número dos que não vão crer (pois Ele conhece de antemão todas as coisas). Ele os entregou à incredulidade e afastou a Sua face de homens desse tipo “(p 284).

Clemente de Alexandria (195 d, C.) transmite a mesma mensagem, escrevendo: “Não só o crente, mas até o incrédulo, é julgado com a máxima justiça. Pois uma vez que Deus sabia, em virtude de Sua presciência, que essa pessoa não creria, Ele, entretanto, a fim de que essa pessoa pudesse compreender a perfeição divina, deu a ela faculdades de raciocínio. No entanto, deu-lha antes da fé” (p.284, ênfase acrescentada).

Tertuliano (207 d.C.) observou que “não é a marca de um Deus bom condenar de antemão pessoas que ainda não mereceram condenação” (p 285).

Hipólito (225 d. C.) escreveu: “O Verbo promulgou os mandamentos divinos declarando-os. Ele tornou-se homem como resultado da desobediência. Chamou o homem à liberdade através de uma escolha espontânea – não o trazendo à servidão pela força da necessidade “(p 288).

Orígenes (225 d.C.) escreveu: “Uma alma está sempre em posse do livre arbítrio – tanto quando está no corpo como quando está fora dele” (p.291).

Para os primeiros pais da Igreja, como Clemente de Roma, Hermas, Irineu, Clemente de Alexandria e Metódio, os eleitos eram simplesmente o povo de Deus (p 293-294). Dizer que uma pessoa era eleita não passava de uma identificação. Assim, os eleitos são os cristãos; e, portanto, ninguém é eleito de antemão, por um mero decreto, já que ninguém é cristão antes da fé em Cristo Jesus.

Esses primeiros pais da Igreja eram igualmente sinergistas em sua soteriologia:

Inácio (105 d. C.) declarou: “Quando se deseja fazer o bem, Deus também está pronto para ajudar” (p 294).

Hermas (ano 150 d. C.) observou: “Aqueles cujo coração Ele viu que se tornaria puro e obediente, Ele deu poder para se arrependerem de todo o coração. Porém, para aqueles em que ele viu engano e maldade, e que pretendiam arrepender-se de forma hipócrita, Ele não concedeu arrependimento” (p.294).

Mais uma vez, Clemente de Alexandria (195 d. C.) escreve que “Um homem trabalhando por conta própria com a liberdade da paixão nada consegue. Mas se ele se mostra claramente muito desejoso e diligente nesse esforço, ele obtém sucesso ao unir-se com o poder de Deus, pois Deus coopera com as almas solícitas”

“Porém, se  abandonarem essa avidez, o Espírito que é concedido por Deus também é retido. Pois salvar os que não desejam ser salvos é característica de um ser que exerce a compulsão. Mas salvar os que desejam ser salvos é característica de um ser que manifesta graça” (p. 295)

Parece até aqui que os primeiros pais da Igreja favoreceram uma visão arminiana do livre arbítrio libertário, eleição e predestinação, sem mencionar a interação de Deus com Suas criaturas. Isso faz com que o Calvinismo seja uma doutrina relativamente nova na história da Igreja e sujeita à suspeita, uma vez que novas doutrinas estão, geralmente, sempre sob suspeita. Se o Calvinismo é tão desesperadamente óbvio, por que os primeiros pais da Igreja não o viram escrito nas páginas da Santa Escritura?

Embora Agostinho tenha estabelecido a doutrina da predestinação incondicional para a salvação, seria Calvino o articulador e sistematizador das visões do bispo de Hipona. Calvino também iria impor as implicações filosóficas dos pontos de vista de Agostinho em uma construção teológica aparentemente hermética, a qual inclui a Depravação Toral, a Eleição Incondicional, a Expiação Limitada, a Graça Irresistível, e a Perseverança dos Santos (defendida como a única versão ortodoxa da soteriologia pelos calvinistas no Sínodo de Dort, e da qual veio a teologia TULIP)

 

1 Laurence M. Vance, The Other Side of Calvinism (Pensacola: Vance Publications, 1999), 39

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