Abraham Kuyper, África do Sul e o Apartheid

Abraham Kuyper, África do Sul e o Apartheid

 

Por George Harinck

 

George Harinck, diretor do Centro de Arquivos e Documentação das Igrejas Reformadas, Kampen e membro do equipe do Centro de Documentação Histórica do Protestantismo Holandês na Free University of Amsterdam, é autor de numerosas publicações sobre a história do protestantismo holandês e suas relações internacionais. Ele entregou estas observações na cerimônia de abertura do Instituto Abraham Kuyper de Teologia Pública no Seminário Teológico de Princeton, no Nassau Inn em 1 de Fevereiro de 2002.

 

No ano passado, quando eu era um acadêmico visitante no Seminário de Princeton, fui convidado pelo meu amigo Max Stackhouse para escrever um livro sobre Abraham Kuyper (1873-1920) e o apartheid. Durante minha pesquisa eu descobri que desde 1975 o tópico de Kuyper e apartheid tem sido bem conhecido no mundo acadêmico internacional. E é de conhecimento popular no mundo de fala inglesa que Abraham Kuyper é um dos pais do apartheid. Mas na Holanda este tópico é mais desconhecido. Não é estranho?

 

Os holandeses conhecem Kuyper, é claro. Ele fundou uma das dez universidades holandesas, a segunda maior denominação reformada no país, um dos três partidos políticos mais influentes do último século, e foi seu primeiro ministro de 1901 até 1905. Os holandeses também conhecem a respeito do apartheid. Muitos kuyperianos foram ativos no movimento anti-apartheid. Justamente porque estavam relacionados com as igrejas brancas reformadas na África do Sul, e justamente porque a Free University estava ligada a Potchefstroom University, os calvinistas holandeses foram todos contrários ao apartheid. Em 1975, eles cortaram os laços com igrejas brancas e universidades brancas e começaram a apoiar as igrejas e universidades negras. Quando Alan Boesak disse isso aos sul-africanos negros “o Deus da tradição reformada era o Deus da escravidão, do medo, da perseguição e da morte,”[1] os calvinistas holandeses colocaram a culpa disso nos bôeres, não em Kuyper.

 

A ausência dos holandeses no debate internacional Kuyper-apartheid não foi notada, mas isto é um elo perdido e certamente influenciou o curso e o alcance do debate. Por exemplo, a relação entre Kuyper e a África do Sul, entre o seu calvinismo e o calvinismo dos bôeres, desempenha um papel formativo no debate. Muitas fontes sul-africanas, americanas e inglesas sobre este tópico contém alguma informação sobre o que Kuyper disse a respeito da África do Sul, mas elas nunca dizem por que e quando ele disse isso. Kuyper é simplesmente considerado um bôere com os bôeres e um calvinista com estes calvinistas. Mas na realidade ele tinha uma relação ambivalente com a África do Sul e os seus habitantes brancos, e centenas de páginas foram escritas a respeito disso em holandês.

 

O interesse de Kuyper na causa bôere tinha dois aspectos: um nacional e um calvinista. Quanto ao aspecto nacional, os bôeres eram um povo cognato. Os holandeses geralmente os negligenciavam, mas no período das guerras anglo-bôeres, de 1880 até 1900, eles mudaram sua atitude e ardentemente apoiaram os bôeres contra a Grã-Bretanha imperialista. Por que esta mudança? Por uma razão muito interessante. A Holanda era uma nação pequena que temia o seu futuro como uma nação independente na Europa.

 

A Alemanha era o poder em ascensão no leste, e a Inglaterra era a poderosa potência mundial em seu lado ocidental. Nestas condições, os bôeres funcionaram como uma âncora de esperança para os holandeses: com a oposição bôere aos britânicos na África os holandeses reconheceram sua vontade de sobreviver na Europa. Kuyper foi o cabeça deste movimento nacional pró bôere. Foram apresentadas petições ao governo britânico, e as ruas e quarteirões foram nomeados posteriormente com famosos generais bôeres. Mas a simpatia pelos bôeres desapareceu tão subitamente quanto tinha surgido. Quando os bôeres perderam a guerra em 1902, os holandeses se esqueceram deles, incluindo Kuyper.

 

Logo após 1880, Kuyper já estava desapontado com os bôeres, não tanto porque perderam uma guerra que nunca poderiam ter ganhado, mas porque eles não estavam interessados em seus ideais calvinistas. De acordo com Kuyper, um verdadeiro holandês era um verdadeiro calvinista, e nos bôeres ele pretendia encontrar um verdadeiro espécime do clássico homem holandês temente a Deus. Ele mesmo considerou que os bôeres poderiam desempenhar um papel em seu plano de restaurar e renovar a posição dos calvinistas na igreja e na sociedade. Mas para o seu desapontamento, os bôeres não estavam dispostos a pisar no palco de Kuyper. Foi por isso que ele lhes virou as costas em 1885. A sua famosa brochura sobre A Crise na África do Sul publicada em 1900, é mais anti-britânica do que pró bôere.

 

Kuyper nunca foi para a África do Sul e a sua decisão de visitar os Estados Unidos e Princeton em 1898 é mais do que acidental. Ele tinha percebido que o futuro do calvinismo não estava na África, mas na América. Ele facilmente deixou para trás a dimensão nacionalista sul-africana do seu calvinismo, pois foi o calvinismo, não o nacionalismo que o guiou. O fato de que a simpatia de Kuyper pelos bôeres foi tão séria quanto curta, veio à luz só recentemente no debate internacional sobre Kuyper e apartheid. Nos últimos anos, foram feitas distinções entre Kuyper e a interpretação sul-afrincana de Kuyper, entre o neocalvinismo de Kuyper e o calvinismo dos bôeres. Como resultado, o papel de Kuyper no debate do apartheid está diminuindo. Se os holandeses tivessem participado do debate Kuyper-apartheid, tais distinções teriam sido feitas muito antes.

 

Uma possível razão dos holandeses estarem ausentes deste debate internacional é que no século XIX e durante muito tempo no século XX, a raça não era um problema na sociedade holandesa. O impulso para o envolvimento holandês no movimento anti-apartheid não foi sua própria experiência com questões raciais, mas o fato de que os bôeres estavam relacionados a elas. O mesmo foi verdade no século XIX de Kuyper. Em suas publicações a raça não é uma categoria. Um bom exemplo disto é que a distinção que ele faz entre as pessoas brancas e de cor em suas palestras, em 1898, só apareceu na edição americana.[2] Na edição holandesa não teria sentido.

 

A raça não era um problema no pensamento de Kuyper. Mas é claro que as suas publicações pressupõem a superioridade da raça branca e da civilização ocidental. Com frequência ele menciona as pessoas africanas em um sentido negativo, por exemplo em suas palestras em Stone – e a sua audiência concordou com ele. Lamentamos o fato dele não desemaranhar, mas sim seguir o preconceito de seu tempo. Porém, a sua atitude em relação à raça não é tão monolítica que ele deve ser considerado um racista absoluto. As palestras em Stone de Kuyper  não discutem a superioridade da raça ou da civilização, mas sim a superioridade do cristianismo. Não é sempre fácil distinguir entre os dois, mas é claro que, para o Kuyper, o desenvolvimento histórico não é um processo determinado pela raça. Nem é a superioridade da raça fixa, mas pode ser perdida pelo branco e obtida pela raça amarela – como o próprio Kuyper escreveu. As pessoas negras que, de acordo com a exegese de seus dias viviam sob a maldição de Cam, poderiam receber a bênção do Senhor. Decisivo no pensamento de Kuyper sobre história e civilização não é a raça ou o desenvolvimento histórico, aspectos que estão além do nosso controle, mas o cristianismo e a responsabilidade humana de escolher a Deus.

 

De acordo com Kuyper, “o calvinismo se obrigou a encontrar sua expressão na interpretação democrática da vida; proclamar a liberdade das nações; e não descansar até que tanto politicamente quanto socialmente, todo homem, simplesmente porque é homem, deva ser reconhecido, respeitado e tratado como uma criatura criada segundo a semelhança divina.”[3] Mais tarde, os kuyperianos reconheceram as limitações históricas do escopo de Kuyper e não hesitou em acrescentar o racismo à lista de males que o calvinismo de Kuyper deve combater.

 

Eles tinham boas razões para fazê-lo, pois há evidências de que Kuyper aplicou a sua convicção calvinista de igualdade e da responsabilidade do homem, não só para a posição das mulheres ou dos pobres, mas também a posição de pessoas de cor. Em 1896, ele formulou regras para o plantio de igrejas nas Índias Orientais, onde as igrejas de Kuyper tiveram o seu principal campo missionário. Nestas regras, declarou que, de acordo com o evangelho, diferentes raças e nações tinham que viver juntos em uma igreja. Esta unidade só poderia ser quebrada em caso de diferença de linguagem ou confissão.[4]

 

Em 1901, ano em que Kuyper se tornou primeiro ministro da Holanda, ele introduziu uma importante mudança na política colonial holandesa, quando ele introduziu a assim chamada política ética. A base desta sua politica foi uma aplicação da sua visão da igualdade humana e da responsabilidade das pessoas e das raças em empregar a sua superioridade no serviço de Deus. No programa da sua administração ele descreveu a responsabilidade da nação holandesa para com os povos das Índias Orientais como proteção contra as realidades da colonização ou da exploração. A ideia subjacente é clara: a Holanda não foi autorizada a abusar da sua superioridade sobre as Índias Orientais Holandesas. Eu não nego o caráter paternalista deste ponto de vista, mas esta política marcou um grande avanço no século XIX na politica colonial holandesa da exploração. E isto mostra que Kuyper não foi guiado pela cultura do racismo de seus dias, mas pelo seu credo calvinista da igualdade humana.

 

Esta é a forma como os holandeses compreendem Abraham Kuyper. Eles certamente não têm a última pista para todas as opiniões desafiadoras e às vezes perturbadoras sobre Kuyper, mas espero ter deixado claro minha questão, que alguma voz kuyperiana holandesa pode acrescentar algo ao debate e pesquisa internacional sobre Kuyper. Sou grato ao Seminário de Princeton por ter demonstrado um interesse real na sua histórica conexão holandesa, e espero que este Instituto Abraham Kuyper para Teologia Pública alimente o relacionamento e o uso da sua excelente localização no Seminário de Princeton para promover o diálogo e divulgação intencional sobre Kuyper. Gostaria de parabenizar Princeton pela abertura deste instituto, também em nome do presidente da Free University of Amsterdam, e espero que Max Stackhouse e sua equipe consigam fazer deste Instituto como a harpa eólica que Kuyper escreveu no final de sua última palestra em Stone: suas cordas estão corretamente afinadas, prontas na janela, aguardando o sopro do Espírito.

[1] Allan Boesak, Black and Reformed: Apartheid, Liberation and the Calvinist Tradition, ed. Leonard Sweetman (Maryknoll: Orbis 1984), 83.

[2] A. Kuyper, Calvinism: six Stone-lectures, (Fleming H. Revell Company, New York 1899), 271: “se alguém nasce como uma menina ou um menino, rico ou pobre, burro ou inteligente, branco ou de cor ou mesmo como Abel ou Cain, é a predestinação mais tremenda concebível nos céus ou na terra.” As palavras em itálico estão faltando na edição holandesa.

[3] Kuyper, Calvinism, 27.

[4] J.C. Adonis, Die afgebreekte skeidsmuur weer opgebou: Die verstrengeling van die sendingsbeleid van die Nederduits Gereformeerde Kerk in Suid-Afrika met die praktyk en ideologie van apartheid in historiese perspektief, (Amsterdam: Rodopi, 1982), 59.

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